Ele foi o caminho inteiro me zoando porque eu disse que não aguentaria comer e comi quase tudo, ele zoou
o jeito que eu como e também me zoou por ter perdido enquanto eu tentava me defender.
-Foi legal, Liliane. -Ele disse quando a gente chegou na frente do meu prédio.
-NANE! -Corrigi. -É, foi sim. Na próxima eu ganho. -Cruzei os braços.
-Na próxima não esquece dos sapatos. -Ele riu e eu olhei para ele com cara feia.
-Tchau, Breno. -Ele riu.
-Tchau, Nane. -Ele disse começando a andar de ré e eu já estava agoniada achando que ele ia levar um tombo a qualquer segundo (o que seria um motivo pelo qual eu poderia zoar ele também) quando ele começou a andar normal e eu fiquei olhando até ele sumir de vista.
Durante o resto da semana eu fiquei tentando colocar o manual de novo em ação e acho que eu até não estou indo tão mal, vi o Breno pelos corredores de vez em quando e ele me cumprimentava todas as vezes, nas aulas foi a mesma droga de sempre: eu dormindo ou sem entender nada, os professores me enchendo o saco e o Mika tentando me ajudar sempre que podia. Meu pai também ligou para avisar que está vivo e que vai ficar morando com o meu tio até conseguir um outro lugar para morar e minha mãe continua estranha mas confirmou que vai mesmo querer o divórcio. Eles também querem sair para jantar comigo,vai ser amanhã.
[...]
Ahhhh, que delicia ter que acordar cedo no sábado e ir fazer prova. As ruas estão até vazias, sabe porque? PORQUE ESTÁ TODO MUNDO DORMINDO. Todo mundo menos eu. E minha irmã. E minha mãe. E todo mundo que estuda na minha escola.
Quando cheguei metade das pessoas estavam escoradas em alguma coisa dormindo e a outra metade estava fofocando sobre o "último babado do colégio" que eu não sei o que é.. Eu apenas fiquei esperando a prova começar para chutar todas as respostas e poder dormir depois. Foi justamente o que aconteceu. Depois da prova, é claro, o Mika foi atrás da Anne e eu fui atrás dele porque eu não tinha escolha.
-...eu não acreditei quando eu soube. -Uma amiga da minha irmã disse.
-Eu também não, nunca imaginei eles juntos. -Uma outra falou.
-Ninguém imaginava eu e o Murilo juntos e olha para a gente. -Minha irmã abraçou o Mika. Ê, começou.
-O que está acontecendo? -Ele perguntou.
-O Rafael está namorando. -Minha irmã explicou para ele e depois balançou a cabeça mostrando o meu Rafael com outra menina. O Mika me olhou e eu olhei para o Mika.
-Eu vou para lá, tchau. -Eu disse saindo.
-Eu vou com você. -O Mika disse mas eu vi que a minha irmã não queria que ele fosse então eu disse para ele ficar e depois de muita insistência ele concordou.
Sai andando por ai pensando no quanto eu sou idiota e tentando ao máximo não chorar na frente da escola toda.
-Oi, Nane. -O Breno disse e foi ignorado. -Nane...-Ele disse e eu sei que ele estava vindo atrás de mim mas eu apenas continuei ignorando. -Ei, não está me vendo aqui? -Ele segurou o meu braço e me fez olhar para ele.
-Só não é uma boa hora, Breno. -Eu disse.
-Está tudo bem?
-Não tem nada bem. -Minha voz embargou um pouco mas ainda sim consegui segurar o choro. Ele chegou mais perto e ficou me analisando enquanto eu olhava para todos os lados tentando não encarar ele.
-Eu posso te ajudar? -Fiz que "não" com a cabeça. -Caso você resolva me contar ou se precisar de alguma coisa...-Ele disse pegando uma caneta de dentro da bolsa e depois de muito procurar um pedaço todo amassado de papel e anotando alguma coisa e depois me entregando. Era o número do celular dele. -Agora eu preciso ir. -Concordei. -Tchau.
-Tchau.
Ele foi para um lado e eu pro outro, guardei o celular dele no bolso da minha calça jeans (que foi liberada hoje, acho qu como agrado pela sacanagem que fizeram) e continuei andando para lugar nenhum até que minha irmã conseguiu me achar e quase arrancou meu fígado falando que fazia tempo que estava me procurando, que já era para a gente ter ido embora, que a mãe está esperando a gente e blablabla, só ignorei ela igual eu fiz com o pobre Breno.
Fiquei a tarde toda trancada no meu quarto e quando estava quase de noite fui me arrumar para o tal jantar, quem sabe isso consegue me animar um pouco e deixar as coisas menos ruins. Tomei um banho, coloquei uma calça e uma blusa branca e uma camisa xadrez para deixar um pouco mais bonitinho e o meu tênis surrado e fiquei esperando a hora de ir.
Enquanto minha mãe não ficava pronta o meu pai chegou e eu e minha irmã aproveitamos para matar a saudade dele. Ele contou como tinha sido os últimos dias, que está tentado achar um lugar para morar aqui perto para a gente poder ir lá sempre que quiser e essas coisas e depois que todos já estavam prontos, a gente saiu. Primeiro deixamos a minha irmã na casa do Mika e fomos para um restaurante de comida italiana que é o preferido do meu pai.
Fizemos os pedidos e durante a espera eu fiquei relembrando de coisas que eu passei com os dois para os dois lembrarem de como era bom quando os dois ainda estavam juntos mas' não deu certo, eles logo mudaram de assunto perguntando de tudo sobre a escola durante aqueles dias, minha mãe contando do
Breno e meu pai naquele maior interrogatório, e eles também falaram que estavam devendo um jantar para o Mika porque agora ele namora a minha irmã e "é da família". Na verdade, minha mãe quer o jantar mas meu pai não me parece muito animado e foi mais ou menos assim que a gente passou o tempo a espera da comida mas eu ainda não tinha entendido o porque de só eu ter vindo jantar com eles e a Anne não e então o garçom finalmente trouxe a nossa comida.
-Então, Nane...-Minha mãe começou a falar depois de começarmos e a comer e de várias trocas de olhares com o meu pai. -...eu e o seu pai sabemos que tem sido uma época bem difícil para você e a nós como os seus pais tentamos fazer o possível para você não sofrer. -Acho que eles só vão falar do divórcio de novo.
-É, e nós conversamos muito e chegamos a conclusão de que não dava mais para esperar para te contar o que nós precisamos contar, quer dizer, isso é uma coisa que a gente devia ter contado a muito tempo. -Eu ri de nervosismo.
-Vocês estão me assustando.
-Liliane...-Minha mãe segurou a minha mão e respirou fundo. -...filha, você...ahhh...-Ela balançou a cabeça negativamente.
-Nane, nós te adotamos. -Meu pai disse e depois ficou um silêncio. Que? Eu ouvi direito? Não, não...eu devo estar tentando pesadelos com o tal do jantar e eu vou a qualquer segundo acordar no chão do meu quarto.
-Que? -Perguntei para confirmar ainda esperando com que eu acordasse.
-Você é adotada. -Minha mãe abriu a boca de novo.
-Vocês tão me zoando, né?
-Sua mãe teve a Anne e depois a gente tentou ter mais filhos mas não conseguiamos...-Meu pai disse.
-Eu descobri que tinha problemas para engravidar, a Anne foi um milagre mas mesmo assim eu queria mais filhos.
-E então a gente te adotou, filha. -Eu olhei para os dois e vi que não era brincadeira e que aquilo era uma conversa muito séria então a realidade acertou minha cara e eu comecei a chorar ali no restaurante.
-E é agora que vocês me contam? -Afastei a minha mão da minha mãe.
-A gente não...-Ela disse.
-SE VOCÊS ESTÃO TENTANDO EVITAR O MEU SOFRIMENTO NÃO ESTÁ DANDO CERTO.
-Eu levantei da mesa e consegui chamar a atenção do restaurante todo.
-Liliane...-Meu pai se levantou e veio para perto de mim e isso só fez com que eu corresse para fora do restaurante para tentar fugir deles. Eu não tinha a mínima idéia do que fazer, a melhor coisa que me veio a cabeça foi sair dali.
Acho que nunca tinha corrido tanto na minha vida inteira e eu não tinha para onde correr, eu não queria ir para casa e então tentei ligar para o Mika mas só dava na caixa de mensagens e depois de umas cinco mensagens sem resposta eu desisti.
-Que merda de vida! -Eu sentei no chão e voltei a chorar ali mesmo sendo observada pelas pessoas que passavam e quando pensei "que tinha gente olhando" eu lembrei do Breno e de que ele tinha me dado o número do celular dele que ainda estava guardado no bolso daquela minha calça. Liguei e chamou por um tempo e eu já estava quase desistindo quando ele atendeu.
-Alô? -Ele disse.
-Breno? É a Nane. -Eu estava tentando me controlar para não voltar a chorar de novo.
-Oi, Nane. Está tudo bem?
-Não, você pode vir me buscar? -Minha voz já estava estranha e estava ficando pior cada vez que eu falava e umas lágrimas já estavam começando a escorrer de novo.
-O que aconteceu? Aonde você está?
-Eu não sei. Você me encontra na frente do colégio? -Eu vi um hotel gigante que eu sempre vejo quando vou para a escola e se eu não me engano eu não estou muito longe de lá.
-Ok. Eu te vejo lá. Se cuida.
-Tá, até daqui a pouco. -Eu disse e desliguei e comecei a andar em direção ao colégio e depois de uns vinte minutos andando e com o meu celular sem parar de vibrar eu finalmente cheguei lá e o Breno já me esperava lá na frente perto de um carro com a porta do passageiro aberta e o que eu fiz foi correr até ele e me pendurar no seu pescoço. Ele me abraçou de volta.
-O que foi? Quer que eu te leve para casa?
-Eu não quero ir para lá.
-São os seus pais? -Balancei a cabeça concordando. -Certo. -Nós entramos no banco de trás do carro e dentro um cara estava esperando.
-Nane, esse é o meu pai.
-Oi, é um prazer. -O pai dele disse me olhando pelo retrovisor.
-Igualmente. -Disse baixo sem soltar do Breno e então nós fomos para a casa do pai dele que era onde ele iria passar a noite.
[...]
-Você tem certeza de que eu não vou incomodar? -Eu disse depois que a gente chegou no apartamento.
-Claro que não, Nane. -Ele me olhou. -Vem, vamos ficar ali na sala. Meu pai ainda não terminou a faxina que ele faz no meu quarto toda vez que venho para cá. -Ele sorriu e colocou a mão na minha costa me mostrando para onde eu tinha que ir. Ele sentou no sofá e eu sentei do lado dele enquanto ele escolhia algum canal na tv. -Quer falar sobre o que aconteceu? -Ele disse se virando para mim depois de deixar a tv ligada em um canal que nem sei qual é. Eu olhei para ele, para a tv, para o meu celular que ainda vibrava até que no fim concordei com a cabeça.
-Primeiro foi o divórcio...-Ele balançou a cabeça concordando. -...ai depois o menino de quem eu gosto começa a namorar...-Ele franziu as sobrancelhas.
-Não vai me dizer que é o Ra...
-Não fala nele. -Eu disse enquanto as primeiras lágrimas escorriam e eu tentava enxuga-las. -E agora eles queriam jantar comigo...e eu não tinha entendido porque minha irmã...-E eu voltei a chorar.
-Calma. -Ele me abraçou de novo e a gente ficou um tempo daquele jeito até que eu resolvi voltar a falar.
-Eles disseram que...que eu sou adotada. -Quando eu terminei de falar quase não dava para entender o que saia da minha boca e então eu só disse esperando que ele conseguisse entender.
-Tá, tá, tá. -Ele me soltou e balançou a cabeça como se ainda não tivesse entendido. -Os seus pais te chamaram para jantar e disseram que você é...adotada? -Fiz que sim com a cabeça. -Nossa. -Ele disse.
-Nane, eu...
-Breno, o que eu faço agora? -Abracei as minhas próprias pernas.
-Vem aqui. -Ele disse abrindo os braços para me abraçar então eu cheguei mais perto e deixei que ele abraçasse e tudo ficou em silêncio enquanto ele parecia pensar. -Deixa eu olhar para você. -Olhei para ele imaginando que eu devo estar linda com a cara toda inchada e tal. Ele enxugou as lágrimas do meu rosto.
-Nem sei o que dizer.
-Não precisa dizer nada. -Dei de ombros e ganhei um beijo na testa e fiquei sem saber o que fazer então resolvi assistir a tv que estava ligada ali fazia o maior tempão. Estava passando um negócio de música e não acabou nem a primeira música e eu já dormi.
"It's not the first time; That it's happened to me; It's been a long, lonely time and it's so funny; So funny to see; That I'm about to loose; My mind, mind, mind; So I hope there'll come a day when; You say, mm-mm, you're my little girl".
Então, gente, gostaram do capítulo e das grandes revelações? Coitada da Nane, só se f*** :( Beijos, Isa.
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