-BRENO! -Eu gritei vendo ele sair de uma lojinha mixada com mercado que tem na avenida a direita da minha casa (acho que ele foi comprar aquele monte de porcarias para afogar as mágoas enquanto chora a noite toda) e não tenho dúvidas de que ele ouviu porque depois do meu grito ele parou de andar e ficou olhando de onde vinha até me ver para que nem trouxa olhando para ele.
Depois que o sinaleiro finalmente fechou e eu consegui atravessar (correndo que nem uma girafa recém nascida) eu alcancei o Breno que me olhava com uma cara estranha como se não entendesse o que caralhos eu estava fazendo ali. Ele ergueu as sobrancelhas enquanto me olhava.
-Então...? -Ele disse depois de uns segundos.
-E-eu estava te procurando. -Disse recuperando o fôlego.
-Porque?
-Porque eu ouvi tudo aquilo que a An...
-Eu não preciso com ninguém com pena de mim. -Ele me interrompeu dando a costa para mim e voltando a andar.
-Eu só queria te ajudar do mesmo jeito que você me ajudou da ultima vez. -Eu disse parada no mesmo lugar enquanto ele ainda andava para longe e quando eu ia me virar para voltar para minha casa vendo que tudo isso foi perda de tempo ele parou de andar e ficou lá parado que nem o besta que ele é. Me virei e comecei a fazer meu caminho de volta.
-Tá, perai. -Ele disse mas eu ignorei e só parei de andar quando tive que esperar o sinal fechar de novo para mim conseguir passar. -Espera! -Consegui ver com o canto de olho ele dando uma corridinha para me alcançar. Pelo tanto que eu corri isso ai é o mínimo que ele poderia fazer. -Foi mal, eu não deveria ter te tratado mal.
-Problema é seu também, nem deveria ter perdido o meu tempo. -O sinal abriu bem quando terminei de
falar e quando fui atravessar ele não deixou porque segurou o meu braço me puxando de volta.
-Veeem, vamos conversar. -Ele disse voltando a andar na mesma direção de antes e me arrastando junto com ele.
-EU NÃO QUERO CONVERSAR COM VOCÊ! -Eu gritei tentando soltar o meu braço.
-Tem gente olhando, sabia? -Ele disse me olhando.
-Problema é deles. -Parei de andar fazendo com que ele parasse também e então comecei a tentar soltar os dedos dele do meu braço a força.
-Calma, ferinha, eu vou te soltar. -Ele disse e me soltou e eu fiquei lá mongando olhando para ele com cara feia. -Vamos começar de novo.
-Não, agora me arrependi até a última célula do meu corpo por ter vindo. -Cruzei os braços.
-Ah, vai, eu já pedi desculpas.
-Tarde demais.
-Você saiu da sua casa descalça para vir atrás de mim e agora tudo isso vai ser em vão? -Ele disse e nós dois olhamos para os meus pés. Talvez eu tenha esquecido de colocar um sapato antes de sair. -Vem, eu te pago um sorvete. -Ele abriu um sorriso mostrando todos os dentes como se aquilo fosse me convencer a aceitar o convite. -Vaaai, diz que sim. -Ele cutucou o meu braço agora segurando o riso.
-Tá, só porque eu não passei por tudo isso a toa. -Comecei a andar.
-Legal. -Ele riu e começou a me acompanhar. Ficamos sem falar nada por um tempo sem falar nada até que ele resolveu quebrar o silêncio. -Como vão as coisas na sua casa? -Dei de ombros e encarei o chão antes de falar.
-Ninguém explica nada, na verdade nem confirmaram para a gente se eles vão se separar mas meu pai não está mais em casa e minha mãe está estranha, agora ela deixa coisas que ela não deixaria nem em um milhão de anos e tenta agir como se tudo tivesse bem.
-E você?
-Eu tentei descobrir algumas coisas sozinha mas não deu certo, então só fico esperando o que mais tem para acontecer enquanto finjo que estou bem. E você?
-Desde uns quinze minutos atrás que estou fingindo que estou bem também.
-Ela não precisava ter sido grossa daquele jeito. -Ele deu de ombros.
-Não importa também, talvez agora eu deixe de ser idiota.
-Eu não te acho idiota. -Disse meio sem pensar.
-Então você é a única. -Ele disse e olhou para o outro lado.
-Como assim?
-Nada, esquece. Vamos falar de outra coisa. -Ele forçou um sorriso.
-Estudando para o simulado de sábado? -Foi a primeira coisa que me veio a cabeça para mudar de assunto e também acho que escola é o único assunto que a gente tem em comum.
-Estudei um pouco mas não foi muito. Na verdade eu acho uma droga ter que ir para escola no sábado.
-Eu também. -Eu disse com um tom animado que fez ele rir e eu fiquei me xingando mentalmente por ter me auto envergonhado.
-Acho que ninguém gostou, são os dias que a gente tem livre de lá e eles querem que a gente vá estudar...quer dizer, fazer prova o que deixa pior. Ainda bem que esse é o meu último ano porque se continuar assim daqui pouco eles inventam de ter aula nos fins de semana também.
-Não me diz isso. -Ele riu.
-É a realidade, jovem gafanhoto. -Olhei para ele com uma cara tipo "que?" e ele só riu mais. Ele ri muito para quem está mal, ou quem sabe é assim que ele finge que está bem.
Depois de andar para caramba descalça pelas ruas de São Paulo o que não é nada legal a gente finalmente chegou na bendita sorveteria. Ele pegou um dos potes e abriu o treco de sorvete e começou a colocar uma bola de cada sorvete até não dar para colocar mais e depois ele ainda jogou todos os sabores de cobertura por cima e mais uns doces por cima e saiu andando devagar para não derrubar tudo. Nem quero ver quando que ele vai gastar nesse sorvete. Ele colocou o sorvete na balança, teve dinheiro o suficiente para pagar o que por um momento eu pensei que ele não teria e dai ele saiu saltitando para se sentar em uma das mesas (mentira, ele foi andando que nem fez antes mas acho que se ele pudesse ele saltitaria).
-Você vai ficar ai olhando? -Ele me perguntou.
-É...
-Anda logo, menina. -Ele disse se levantando e pegando um dos potes para mim. -Pega seu sorvete. Peguei só uma bola de sorvete de chocolate, sabe? Aquilo de fingir que como alguma coisa. Antes de eu ir até a balança da verdade o Breno veio analisar o que eu tinha pegado. -Ahh, fala sério, não é assim que se faz.
-Ele tomou o pote de mim e começou a colocar um monte de coisa dentro.
-Mas eu...
-Vai lá sentar. -Ele apontou para mesa e eu fiquei uns segundos ali plantada antes de ele voltar a falar.
-Vaiii... -Obedeci e fiquei olhando o movimento da rua até ele voltar, colocar aquele monte de sorvete na minha frente e se sentar na mesa também. -Viu? É assim que se faz. -Ele apontou pro pote lotado.
-Eu não vou aguentar comer tudo isso e você vai ter gastado dinheiro atoa.
-Sorvete é um presente divino, tem que comer até não ter mais. -Ele disse e começou a comer e eu ia colocando só um pouco de sorvete na boca só para não fazer desfeita e dai ele começou a comer mais rápido de um jeito que eu sei que era para me provocar e quando percebi aquilo tinha virado uma competição de quem terminaria o sorvete primeiro.
-Tá, agora é oficial, eu não aguento mais. -Eu disse e por incrível que pareça eu tinha conseguido comer quase tudo. Ele riu.
-Então quer dizer que você está desistindo?
-Não aguento nem mais um confete de chocolate. -Ele ergueu os braços em comemoração da sua vitória e depois foi terminar o sorvete enquanto me olhava sério, mas pouco tempo ele voltou a rir de novo.
-Tá tudo sujo ai ó. -Ele apontou para minha cara e riu.
-Eu não sou a única. -Apontei para cara dele e então começamos a nos limpar.
Ficamos lá sentados por um tempo porque a gente não aguentava andar, juro que se eu fizesse isso o fim não seria muito legal.
-Eu vou te acompanhar de volta para casa. -Ele se levantou.
-Valeu. -Eu disse me levantando também e então começamos a fazer o caminho de volta.
Gostaram? Vocês acham que eles vão acabar amigos? Beijos, Isa.
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