-Uma moradora de rua, provavelmente. -Eu disse olhando os CD's e os discos de vinil dele e ele deu risada.
Mais uma vez estamos no apartamento do pai dele. Acho que ele já deve estar achando estranho abrigar uma estranha na casa dele. No mínimo deve estar achando que eu estou inventando umas desculpinhas para ver o filho dele mas de qualquer jeito, ele é um cara legal, bem desencanado e que gosta de ajudar os outros (cá entre nós: ele pode ter me adotado, a vida seria mais fácil).
-Eu acho que mais tarde a gente vai ter que te devolver pros teus pais.
-Eu sei, mas se vocês precisarem de um novo membro na família já sabem quem procurar.
-Acho que...você devia falar com os seus pais as coisas que você tá sentindo. -Encarei ele. -Não to querendo me intrometer na sua vida mas acho que, sei lá, talvez as coisas melhorassem um pouco. -E então ficou um puta de um silêncio até ele voltar a falar. -Você não se sente meio sufocada guardando tudo isso para você mesma? E família é quem cria, da amor...a sua mãe não tem culpa do teu pai ter pulado a cerca, você podia tentar falar com ela.
-Você conversou com o Mika, né? -Ele concordou com a cabeça.
-A gente tem as mesmas opiniões sobre isso. Eu não te conheço tão bem que nem ele mas mesmo assim. Ele só pensa no melhor para você. Se você não quer falar com os seus pais, fala com a Anne então, ela não tem culpa do que aconteceu e não é só você que está passando por coisas difíceis.
-Você ainda gosta dela? -Ele concordou com a cabeça de novo. -E você não acha estranho conversar com o Mika quando ele tá pegando a menina que você gosta?
-Você já gostou de alguém? Mas de verdade mesmo?
-Já, você sabe que eu gosto do Rafael.
-E se ele estivesse feliz com outra pessoa, você iria atrapalhar? -Capitei a mensagem e fiquei quieta. -
E eu nunca teria chance mesmo! O amor não é para mim.
-O problema não é o amor...
-...o problema é a falta dele. -Dessa vez eu é que concordei com a cabeça.
-Eu gravei um CD novo para...você. -Ele franziu a testa e foi colocar o CD para tocar e então a gente ficou em silêncio com o único som sendo o da música saindo da caixinha de som do computador e então vários pensamentos tomaram conta da minha cabeça e mesmo não querendo admitir, eu sei que ele (e o Mika) tem razão, mas é mais fácil falar quando não é com você.
Quando o Sol estava se pondo o pai do Breno ligou para a minha mãe para avisar que eu estava com eles e ela já estava surtando porque a Anne ligou para contar que eu sumi e ninguém fui atrás porque a nova namoradinha do meu pai achou que seria uma boa não ir porque era exatamente isso que eu queria e quando eu percebesse que ninguém fez isso eu iria voltar. Acho que não, queridinha. Quando cheguei em casa a Anne também estava lá e disse que meus pais tiveram uma briga feia e que minha mãe não permitiu que a Valéria colocasse os pés no nosso apartamento (queria ter visto isso).
Depois nós tivemos uma noite das garotas: preparamos o nosso jantar, e então fomos assistir programas policiais na TV e ficamos dando palpite em quem seriam os criminosos enquanto comíamos todas as porcarias que conseguimos comprar no posto de gasolina e foi assim até de madrugada quando não conseguimos mais ficar com os olhos abertos. Foi um dia longe (e eu e minha mãe decidimos fazer terapia em família).
Foi mal, não consegui achar um nome melhor para esse capítulo. E ai, o que acharam?
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