27 de junho de 2014

Our Song - O pau mandado

-COMO ASSIM VOCÊ CONTOU PARA ELE, GUILHERME? -Eu gritei e todo mundo que passava nos encarou. Quando parece que não dá para ficar pior não duvide porque dá sim.

-Agora ele sabe de você e de seus interesses e eu sei que ele vai prestar mais atenção em você. -Ele não sabe o risco que está correndo de ter a sua cabeça tirada do pescoço.

-Eu não acredito que você fez isso, eu não acredito! -Eu disse e sei que deu para perceber o ódio na minha voz e que eu estava segurando para não tirar a cabeça dele do pescoço de verdade.
Sai andando e deixei ele para trás chamando o meu nome e dizendo que eu não devia ficar tão estressada.

[...]

Durante algumas semanas tudo continuou a mesma merda mas quando cheguei no meu quarto e vi um bilhete da minha irmã dizendo que o pai dela queria falar com a gente eu sabia que coisa boa não podia ser e eu também estou os evitando, até parece que só com esse bilhetinho vai ficar tudo bem e eu vou ir lá falar com ele por vontade própria.

Eu andei pensando bastante no assunto da adoção e cheguei a conclusão de que eu não tenho raiva por ser adotada, se eu parar para pensar eu até tenho sorte de ter conseguido uma família e blábláblá mas puta que pariu, que merda eles tem na cabeça? No pior momento da minha vida me dizer uma coisa dessas? Para começar, eles nunca deveriam ter escondido isso de mim e me feito acreditar em tudo o que eu acreditava.

De qualquer jeito eu não quero ter que olhar para eles e ficar notando todas as características deles que eu não tenho, pensar no sangue que eles tem e eu não tenho, olhar para a Anne e pensar que eu queria saber quem são meus pais biológicos igual ela sabe. Tipo, porque os meus pais não me quiseram? Ah, sei lá, tudo isso é uma droga.

-Liliane! -Era a voz do Mika falando por trás da porta trancada do meu quarto enquanto quase a derrubava com tanta pancada que dava nela.

-O que foi, Murilo? -Eu falei perto do lado oposto da porta dando bastante ênfase no Murilo. Eu não iria abrir a porta até ter certeza de que ele estava ali sozinha, aliás, ele estar ali é bem estranho porque desde que ele começou a namorar a Anne ele quase não vem aqui para falar comigo e coisas do tipo, o que é uma grande droga.

-Eu quero falar com você, sobre a  sua família. -Ele disse finalmente parando de bater na porta.

-Qual família? Aquela que nunca me quis e me deu embora ou aquela que mentiu para mim a vida toda? -Ok, talvez eu esteja com raiva sim mesmo que eu esteja tentando usar a razão pela primeira vez na vida.

-Lilianee! -Ele resmungou do outro lado.

-O que a Anne quer? -Disse abrindo uma fresta da porta.

-Como você sabe que foi a Anne que me mandou aqui? -Ele me encarou.

-Desde que vocês começaram a namorar você não é mais meu amigo, você é o namorado da minha irmã então é meio óbvio que você sendo pau mandado igual é veio aqui com algum recadinho. -Acho que eu consegui ficar pior do que eu já era antes.

-Pau mandado? Já parou para pensar que talvez você esteja passando muito tempo com o seu novo melhor amigo ou namoradinho Breno? -Ele retrucou sendo tão fofo quanto eu.

-Primeiro que ele não é meu namorado e você sabe que não estava aqui quando eu precisei porque você estava aonde? Ah é, com a SUA namoradinha, né? E quem que me ajudou? Ah é, foi o Breno!

-E depois você deu uns pegas nele! -E quando eu ia abrir a boca para responder ele voltou a falar empurrando mais a porta para conseguir abrir passando quase por cima de mim. -Olha, Nane, chega de discussão, eu só faço isso porque eu sei que você não quer falar com nenhum deles.

-Tá, e o que eles querem? -Eu perguntei cruzando os braços enquanto olhava ele entrar no meu quarto e sentar na cama.

-O seu pai é quem quer que vocês duas conheçam a namorada dele. -Ele disse enquanto eu trancava a porta.

-Como assim? A... -Me virei para ele.

-É, a ex amante que agora é namorada. -O Mika respondeu adivinhando a minha pergunta.

-Nem em sonho que eu quero conhecer essa mulher. -Eu disse andando até ficar próxima dele.

-Eu sei, a Anne também não, mas a sua mãe está tentando convencer ela e também quer que a gente convença você. -Ficou um silêncio por alguns segundos até ele voltar a falar, provavelmente depois que eu fiz a minha melhor careta para ele. -Não me olha com essa cara, eu também não estou entendendo a sua mãe, mas acho que ela está tentando viver meio "foda-se tudo".

-Pode avisar para eles que eu só vou quando Jesus descer do céu me dizendo para ir. -Me joguei na cama do lado dele.

-Tá bom. -Ele respondeu e continuou parado ali.

-Agora já pode ir. -Disse levantando a cabeça para olhar para ele.

-Ir aonde? -Ele me olhou como se aquilo fosse ridículo.

-Com a sua namorada, ou sei lá, vai lavar uma louça ou arrumar alguma coisa que preste par fazer.

-Não, hoje eu vou ficar aqui mesmo. -E ele deitou do meu lado. -Acho que você precisa mais do seu melhor amigo do que a Anne precisa de um namorado. -Acho que esse foi o jeito dele pedir desculpas ou talvez fez isso só para me contrariar, mas não importa, foi bom ter o MEU amigo de volta mesmo que só por hoje, as coisas até parecem como antes.

Nós ficamos conversando sobre a adoção, o Breno, a Anne, a escola, o Rafael, o cachorro da vizinha do Mika, o último filme que saiu no cinema e dizem que é horrível, sobre a louca da professora de Física e todos os assuntos que estavam precisando ser colocados em dia, nós também fomos escondidos até a cozinha roubar comida e ele ficou lá comigo até que ficou muito tarde e ele teve que ir para casa.

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