NANE POV
De madrugada eu acordei com o barulho de alguma coisa quebrando e depois ouvi gritos dos meus pais e fui ver o que estava acontecendo e acabei encontrando minha irmã espiando no corredor e do nada, para mim o que parecia tudo bem, tudo desmoronou e eu vi meus pais brigando e minha irmã disse que eles talvez iriam se separar.
Sorte que hoje já é sábado e eu não vou ter que ir para a escola, além de tudo isso estar sendo uma merda eu não dormi nem um segundo sequer depois que eu acordei com aquela confusão, eu até tentei mas não deu. E se eles se separarem mesmo? Eu não vou poder escolher entre um deles, e tanta coisa vai mudar, e porque tudo isso está acontecendo?
Lá pelas dez da manhã o Mika me ligou e acabou me convencendo a ir com ele e com a minha irmã almoçar alguma com ele em algum restaurante daqueles do shopping e ver um filme "para distrair". Eu coloquei qualquer coisa, aquele manual de regras do Guilherme vai ficar de lado por tempo indeterminado e o Rafael é que me desculpe se a gente se encontrar por ai.
-O que você quer comer? -O Mika perguntou depois que a gente já estava na praça de alimentação, e só dei de ombros, na verdade eu não quero nem comer, só vim para deixar ele feliz. -Anda, Nane, me diz. Até se você quiser almoçar pizza eu deixo. -Ele disse passando os braços em volta de mim e me puxando para perto dele.
-Tanto faz, o que você quiser.
-Certo, e você? -Ele perguntou para a Anne.
-Você decidi. -Ele suspirou provavelmente irritado com o plano dele não estar dando certo graças a nossa "super animação" e então acabamos indo almoçar comida italiana. Macarrão com molho de sei lá o que, mas uma coisa que a gente acabou deixando (obrigando) ele a decidir.
Alguém já me viu sem vontade de comer? Não, né? Porque eu nunca fiquei sem vontade de comer, mesmo quando eu estava doente, então isso é para todo mundo ver como eu realmente estou mal. Dei algumas garfadas na comida só enquanto a Anne também fingia ter fome e assim que ela parou eu parei também e só o coitado do Mika comeu.
Eles também ficavam toda hora olhando para mim e depois olhando um para o outro e no fim, desviando o olhar até dois minutos depois voltarem a fazer aquilo de novo, como se eu fosse idiota e cega.
-A gente já está há um tempo querendo te contar uma coisa. -A Anne começou, ai o Mika fez de novo aquilo de me olhar e depois olhar para ela quase morrendo engasgada com a comida.
-Então conta. -Olhei para ela com aquela cara de cruzamento de peixe morto com um zumbi recém saído de The Walking Dead depois de uma noite de insônia. Eles se olharam de novo.
-Nós estamos...-Ela começou e depois parou olhando para ele.
-Namorando. -E então o Mika completou parecendo meio aliviado por ter dito aquilo.
-Legal. -Dei um sorrisinho só para fingir que aquilo tinha me animado.
-Eu que não deixei o Murilo te contar porque eu não sei como contar para os nossos pais e não sei como vai ser quando eles ficarem sabendo, ainda mais agora. -A Anne começou a brincar com a comida no prato parecendo que ali só tinha o corpo e que a mente dela tava sabe-se Deus lá aonde.
-Acho que vocês deviam aproveitar agora que eles tem problemas maiores para se preocuparem com o namoro de vocês.
-Mas e você? Não tá brava com a gente? -Fiz que não com a cabeça.
-Só não me escondam mais nada, e não iria contar para os meus pais. -Olhei para a Anne porque eu estava falando com ela.
-Eu sei, desculpa. -Ela disse e saímos de lá, desistindo do cinema.
-O que a gente vai fazer agora? -Eu disse de vela (só para melhorar) depois que a gente deu umas três voltas pelo shopping.
-Quer ir no Ibirapuera? -O Mika me perguntou e eu concordei e fomos para lá. Eu gosto do Ibirapuera.
Quando chegamos eu e o Mika ficamos andando em volta do rio (lado, tanto faz) que tem lá conversando sobre assuntos aleatórios até cansarmos e fomos sentar com a Anne na grama e a única coisa que dava para ouvir enquanto eu ficava encarando o céu eram as outras pessoas que estavam lá no parque mas logo aqueles pensamentos que tomaram conta da minha cabeça de noite voltaram e eu não prestei atenção em mais nada até a hora que começou anoitecer e nós ligamos para o pai do Mika para ir nós buscar.
No caminho ficou um silêncio tenso até que o tio Marcos resolveu ligar o som do carro "Take me down to the river bend; take me down to the fighting end wash the poison from off my skin; Show me how to be whole again".
-Obrigada pela carona. -A Anne disse pro tio Marcos e depois se despediu do Mika.
-Tchau. -Eu disse descendo do carro enquanto os dois acenavam para mim.
Meu pai não está aqui, igual as coisas dele, eu já imaginava que algo assim iria acontecer. Minha mãe estava no quarto e só saiu de lá para perguntar se a gente queria jantar e quando negamos ela se enfiou lá dentro de novo.
-Nane. -Minha irmã apareceu atrás de mim enquanto eu dava alguns goles em um copo de água.
-Que? -Me virei para ela.
-Eu sei que a gente briga muito mas eu acho que a gente devia parar e ser mais unidas, principalmente agora então que tal a gente pelo menos tentar parar de brigar?
-É, seria legal. -Eu coloquei quase que o copo cheio em cima da pia.
-Legal. -Ela sorriu para o chão e vindo na minha direção. -Sem brigas. -Ela me abraço.
-Certo, sem brigas. -Abracei ela de volta.
-E sem te esconder mais nada. -Concordei. -Boa noite. -Ela disse não parecendo muito acreditar que seria boa.
-Boa noite. -Respondi com o mesmo pensamento e fiquei olhando ela sair da cozinha.
Demorei muito tempo no banho e aproveitei que pela primeira vez não tinha ninguém por perto para chorar. Porque a vida tem que ser tão complicada? Dormi de cabelo molhado mesmo, quem sabe eu não pego uma pneumonia e morro?
[...]
Hoje de manhã só para variar madruguei e fiquei feito um zumbi andando pela casa sem vontade de fazer nada enquanto minha irmã ficou o dia todo no quarto e minha mãe acordou parecendo bem como nunca e foi para a casa da minha tia desacompanhada depois que nós preferimos ficar.
Me deitei no sofá e fiquei encarando o teto tentando me distrair inventando histórias que nunca vão acontecer até que voltei a pensar no que eu não queria pensar e voltei a chorar até que a campainha tocar e como minha irmã não deu nenhum sinal de que iria sair do quarto para atender, eu enxuguei as lágrimas e fui lá tentando fazer parecer que não tinha nada de errado.
Quando abri a porta descobri que era aquele menino que eu esqueci o nome (de novo!) e com quem eu briguei da última vez...enfim, é o menino dos cd's.
-Hoje não é um bom dia. -Eu disse tentando não o olhar nos olhos como se isso fosse fazer ele não perceber os meus olhos inchados.
-Você tá chorando? -Ele tirou o cabelo da frente do meu rosto.
-Não. -Eu me afastei um pouco encarando o chão.
-O que aconteceu? -A vontade de chorar estava voltando.
-Nada. -Disse com a voz ficando embargada.
-Você pode me contar se quiser.
-E da última vez a gente tava brigando. -Eu abri um sorriso irônico.
-O outro dia já ficou no passado. -Sorri de novo por ele que eu nem sei o nome estar querendo me ajudar.
-Eu só achava que...-Enxuguei umas lágrimas que estavam escorrendo. -...estava tudo bem e dai tudo muda do nada e eu percebo que na minha vida nada tá bem.
-Isso acontece, a vida tem dessas coisas. -Ele fez uma pausa parecendo pensar um pouco enquanto me analisava. -Vai ficar tudo bem, sempre fica.
-Mas eu não posso escolher entre os meus pais. -E lá vou eu chorar de novo.
-Você não tem que escolher entre eles, porque teria? -Ele pareceu confuso.
-Porque eles estão se separando.
-Meus pais também se separaram...-Ele disse enquanto enxugava as lágrimas que tinham escorrido. -...já vai fazer um ano e eu também achava que era o fim do mundo, mas de verdade, vai ficar tudo bem. -Me virei entrando de novo em casa e depois abrindo mais a porta para que ele entrasse e ele entendeu o recado e entrou. Ele deixou o cd em uma mesinha que tem na sala e se sentou no sofá depois que eu apontei para ele.
-Porque seus pais se separaram?
-Brigas. Eles só começaram a brigar por tudo até que uma hora não deu mais certo. E os seus pais?
-Eu não tenho a mínima ideia, eu só acordei com uma confusão na noite de ontem e do nada me falaram que eles estavam se separando. Para mim estava tudo bem, eu não via nada de errado.
-Tenso. -Ele disse baixo.
-Você ficou com quem?
-Com a minha mãe.
-Como você se decidiu?
-Ah, mãe é mãe. Ela é mais compreensiva, é mais parecida comigo, parece me entender mais e o meu pai trabalha muito então eu ia acabar ficando sozinho o dia todo e isso não seria legal, mas eu vejo o meu pai todo fim de semana para fazer coisas que só se faz com o pai e tal. É legal, é melhor os dois separados que eles juntos brigando todos os dias e por qualquer coisa.
-Eu tenho medo de escolher minha mãe e deixar o meu pai mal.
-Meninas precisam da mãe, e ele é o teu pai, ele te ama e os pais não conseguem ficar bravos com os filhos. Se você escolher sua mãe você vai poder ver ele, e você pode ligar todos os dias. -Ele sorriu para mim.
-Obrigada. -Sorri.
-Não por isso. -E logo que ele terminou de falar a porta fez barulho e minha mãe entrou por ela e por um momento se surpreender um pouco vendo o menino ali mas depois voltou a parecer toda feliz que nem estava hoje mais cedo.
-Oi, Breno. -Ela disse sorridente. Ele me olhou com o canto do olho e depois voltou a olhar para a minha mãe.
-Oi. -Ele disse sorrindo de volta para ela.
-Veio ver a Anne? -Minha mãe perguntou.
-Na verdade eu já fiz o que eu tinha que fazer. -Ele sorriu para mim. -Já to indo. Tchau, senhora Medeiros. Tchau, Liliane. -Ele acenou para mim e foi embora.
O que acharam do capítulo? Não esqueçam de comentar dizendo o que acharam. Beijos, Isa.
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