25 de setembro de 2013

Our song - Aulas sobre o deus grego

 -Que bom que veio "buscar a matéria", Nane. -O Guilherme disse quando ele abriu a porta e me viu lá fazendo aspas com o dedo.

-Não sei porque aspas, eu só vim buscar a matéria. -Fiz a cara mais feia que eu consegui.

-E aprender um pouco sobre a matéria...-Ele se aproximou segurando a risada. -...Rafael. -Ele gargalhou.

-Cala essa sua boca. Você vai me passar a matéria sim ou não? -Fiz cara de bunda.

-Entra. -Ele abriu a porta para que eu pudesse entrar  e depois ele foi na frente sendo seguido por mim e fomos até o quarto dele que é tipo, muito bagunçado. Não tem nem chão porque está tudo cheio de tranqueira. Juro que posso ser fácil fácil atacada por um rato mutante assassino ou baratas super desenvolvidas que estão escondidas ai e então meus problemas seriam resolvidos mas mesmo assim eu quero que o que eu imaginei não aconteça porque eu não quero ratos e baratas perto de mim. Nem meu quarto é assim e minha mãe reclama que é bagunçado.

-Quarto...-Eu pensei em ser legal mas quando olhei em volta fiz uma careta que não me ajudou muito na hora de mentir. -...maneiro?

-Tá, senta ali. -Ele apontou para uma cadeira que estava sendo usada como guarda-roupas para uma pilha de roupas sujas. Eu encarei a cadeira e voltei a fazer careta e então todo delicado ele pegou as roupas e arremessou até o outro lado do quarto e elas se espalharam pelo chão. Franzi as sobrancelhas olhando por onde as roupas tinham voado e olhei para ele com uma careta e ele só sorriu para mim.

-O que quer saber sobre o Rafael? -Ele disse depois que finalmente me entregou os cadernos que quase não tinham matéria mas ainda sim tinham mais que os meus.

-Nossa, tudo isso de matemática? Ah, e você nem copiou tudo. -Eu olhei parao caderno virando as folhas e ignorando a pergunta dele.

-Eu não tenho tudo e você sabe disso, isso aqui é só para a gente falar sobre o Rafael, besta, lembra?

-Não, idiota, eu disse que vinha pegar a matéria mas você não tem nada. Obrigada mas eu vou pegar com o Mika, tchau. -Disse jogando minhas coisas de qualquer jeito na minha bolsa...quer dizer, tentando porque até uma bolsa consegue me tapiar.

-Olha, Liliane. -Ele limpou a garganta. -Não adianta esconder, tá? Você mesma acabou confessando então aceita a minha ajuda, tá? Pega esse caderno e pega uma das muitas folhas limpas que você tem e começa a anotar o que eu vou te falar se você quer conquistar o meu irmão, falou? -Eu estava com os braços cruzados e com a cara mais feia que eu consegui fazer enquanto ele falava mas quando ele terminou eu peguei de novo o meu caderno e me joguei de volta na cadeira para obedecer ele.

-O Rafael gosta de meninas que se cuidam então, começa a arrumar esse cabelo e passar um pouco de maquiagem e essas coisas que as meninas fazem. -O encarei esperando ele rir mas ele estava sério. Rolei os olhos e anotei. -E de meninas cheirosas também, pode passar bastante perfume. -Ele apontou pro caderno para mim anotar e depois ficou olhando em volta. -Ele gosta de meninas fofas e de bom humor, o que você não é...-Ele encarou o que eu acho que é a cama dele. -...então resolva esse problema. Faça amigos e seja legal com todo mundo, principalmente na frente dele. É...

-Só isso? -"Só". Até parece que vai ser fácil.

-Cala boca que eu to pensando.

-Ele gosta de meninas inteligentes então quando for para a escola: estude.

-Ele vai fazer o que? Olhar meu boletim todo trimestre e se eu estiver com as notas abaixo de 70 ele termina comigo?

-Só cala a boca e anota o que eu estou falando,  tá? Hm... Ah, ele gosta de festas então você tem que saber dançar para sair com ele, ele não vai querer passar vergonha com uma menina que...né? -Fiz sinal para ele continuar. -A menina tem que ser boa na conversa, sabe? Ter assunto e essas coisas.

-Certo.

-Ele é ciumento então não fica se esfregando em outros caras mesmo que sejam amigos.

-Eu só ando com o Mika, e agora um pouco com você, então isso não vai ser um problema. -Ele me encarou feio.

-Seja legal e simpática, Liliane, começando agora.

-Tem que ser confiante, nada de agir feito uma babaca perto dele. -Isso ai, gente, to desistindo porque isso não vai dar certo. Falou. -Se você tiver assuntos em comum com ele melhor ainda.

-Então me diz do que ele gosta.

-É, de futebol... -Fiz careta. -...ele odeia ler...

-Já temos algo em comum.

-Ele gosta de tocar violão...

-Eu tenho que aprender a tocar violão como castigo.

-Sério? -Ele me olhou com um risinho. -Vou pedir para ele te ajudar com isso...

-NÃO!

-Mais uma regra: não aja como uma louca e não grite no ouvido do irmão dele. Se eu estou falando apenas obedeça, valeu?

-Nossa, mamãe.

-Tá...ele gosta de cachorros...

-Também te tendo como irmão.

-Nane!

-Verdade, coitado dos cachorros.

-Ele gosta de filmes de terror, assim como eu e odeio aquelas meloseiras de romance, gosta de viajar e de meninas gostosa...é, você pode entrar em uma academia e resolver  isso. -Encarei ele, esse gordo que precisa de academia. -Hm, se comporte na escola, de verdade, tenha estilo e seja você mesma.

-Como? Ou eu vou ser legal ou ser eu mesma.

-Finja ser legal.

-Mas ai eu não...

-Nane, não complica.

-Você tammbém não pode ser ciumenta então não enche por causa das amigas dele, a ex dele levou um chute por causa disso. Ele também gosta de video-game, a gente aposta  quando joga mas ele não é tão bom quanto eu então se você souber jogar video-game já ganha muitos ponto e sei lá, acho que é isso. -Ele parou e ficou olhando para o nada.

-Ok...-Eu disse um tempo depois.

-Ah, aprenda a cozinha, eu gosto de comer.

-Foda-se, problema é teu.

-É, vamos testar sua habilidade na cozinha, vai que você ganha ele pelo estomâgo, talvez ele até case. -Ele riu.

-Eu não vou cozinhar para você, eu nem sei cozinhar e o máximo que pode acontecer sou eu pondo fogo na cozinha.

-Então eu vou te ensinar porque nõs somos ótimos cozinheiros, sabe? De família. -Ai eu lembrei que os pais deles são donos de um restaurante muito famoso e eu aqui só  sabendo cozinhar miojo.

-Guilherme...-Fiz manha mas fui praticamente arrastada até a cozinha.

-Me mostra o que você faz quando sua mãe não está em casa, sua especialidade.

-Passo fome.

-Não é possível que você não saiba fazer nada. -Rolei os olhos e comecei a revirar a cozinha toda pegando de tudo.

-Isso se chama x-tudo que tem na cozinha. -Falei e comecei a pegar todas as coisas salgadas que me pareceram ser boas e a colocar dentro do pão até as coisas começarem  a cair de lá, então enfiei tudo no microondas e depois coloquei o prato na frente dele.

-Toda essa bagunça por isso?

-Você me faz cozinhar e ainda reclama? Eu não sou filha de um super cozinheiro.

-Chefe.

-Tanto faz.

-Tem diferença. -O Rafael apareceu na porta da cozinha analisando toda a bagunça, me olhando e depois encarando o Guilherme como se perguntasse que merda que estava  acontecendo ali. Olhei pro Guilherme segurando a risada, eu estava morrendo de vergonha mas tava morrendo de vontade de rir, isso ajudaria a disfarçar...Comecei a gargalhar e os dois me encararam.

-Como eu disse eu não sou filha de um super cozi...-O Rafael ergueu a sobrancelha. -...chefe. -Corrigi segurando o riso e ele voltou para o jeito que estava antes e eu estava esperando o Guilherme mentir por mim.

-Eu tava tentando ensinar ela a cozinha mas...-Ele apontou para o meu belo x-tudo, no sentido literal.

-Que isso? -O meu deus grego perguntou.

-Um...sanduíche? -O corno do Guilherme respondeu.

-O que você faz quando sua mãe não está em casa? -O deus grego me encarou (repetindo a pergunta do irmão) como se fosse um absurdo.

-Eu perguntei a mesma coisa. -Viu?

-Passo fome? -Repeti minha resposta.

-Por isso eu estava tentando dar uma aula de culinária para ela.

-Olha, o pai de vocês é dono de um restaurante e o mínimo que vocês podem fazer é saber cozinhar. Eu já disse que não sou filha de um chefe...-dei enfase no chefe. -...então ou eu passo fome ou eu faço meu x-tudo que tem na geladeira. -Cruzei os braços. Minha vergonha estava passando até, para a minha surpresa, e eu já estava ficando irritada com aquela putaria.

O meu futuro marido, deus grego, analisou a minha especialidade que estava largada lá no prato de frente para o Guilherme, pegou e deu uma mordida se afastando para que os zilhões de coisas que eu coloquei ali não sujassem a sua roupa. Ele balançou a cabeça.

-Para quem passa fome até que está bom. -Ele deu de ombros olhando para o irmão dele e colocando o sanduíche de volta no prato e o Guilherme também experimentou.

-E eu nem coloquei fogo na cozinha.

-É. -O Guilherme concordou.

-Na próxima eu faço meu shake tudo e meu miojo com molho de tomate. -O Rafael riu me deixando empolgadinha apesar de eu achar que ele ria da minha cara. Foda-se, eu fiz ele rir.

-Na próxima te faço uma lasanha de peito de peru. -Ele riu falso.

-Combinado. -Eu segurei o riso observando com o canto do olho o Rafael pegando água na geladeira enquanto tudo ficava em silêncio a não ser pelo vizinho de novo com  aquelas porcarias de música dele e pela água sendo colocada no copo. -Agora eu tenho que ir. Ainda tenho que pegar a matéria com o Mika. -Disse indo para fora da cozinha.

-Você vai me ajudar a limpar isso daqui. -O Guilherme veio atrás de mim.

-Eu não, você que me obrigou a cozinhar, o mínimo é você limpar a cozinha. -Sai correndo até aquele lixão que ele chama de quarto.

 Peguei a minha bolsa que tava toda aberta e com as coisas caindo e meu caderno de cima da bancada e desviei do Guilherme na entrada do quarto.

-Se eu pudesse...-Ele começou a falar alto. -...eu te ajudava a treinar violão, mas o meu irmão que é bom nisso. -Olhei para ele mexendo a boca para dizer que era para ele calar a boca.

-Não precisa. -Falei na mesma altura.

-Mas Nane...eu sei o quanto você quer aprender a tocar violão.

-Eu me viro. -Paramos na frente da porta da cozinha quando o interfone tocou e o Guilherme foi atender, era o síndico mandando a gente calar a boca.

-Ela não sabe cozinhar e nem tocar violão...essa menina precisa de ajuda. -O Guilherme disse pro irmão que ainda estava na cozinha.

-Então ajuda. -O Rafael virou para a janela ficando de costas para a gente...bela bunda. Eu ri.

-Você vai ficar com isso? -Falei para o Guilherme apontando para o meu sanduiche mas ele não respondeu e só ficou me olhando com cara de bunda. -Tá, valeu. -Peguei o sanduiche e fui andando até a porta deixando todo o meu recheio pelo chão fazendo uma trilha de João e Maria. -Se quiser me achar, siga as migralhas...ou se ficar com fome, você que sabe. -Falei pro Guilherme que me olhava daquele mesmo jeito. Abri a porta, dei três passos e estava em casa.

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